Saúde emocional: por que estudantes não pedem ajuda
Pressão por desempenho, dificuldade de falar sobre emoções e novas formas de buscar apoio desafiam estudantes; especialistas orientam sobre sinais e acolhimento
Nem sempre o sofrimento emocional de um estudante aparece como tristeza ou como um pedido direto de ajuda. Mudanças de comportamento, isolamento, queda no rendimento, faltas recorrentes e dificuldade de concentração podem indicar que algo não vai bem.
Para o psiquiatra e professor da Faculdade de Psicologia da Unoeste Guarujá, Rondinelli Salvador, é importante observar essas alterações em relação ao funcionamento habitual da pessoa e ao contexto em que ela está inserida, sem transformar automaticamente um comportamento em diagnóstico.
“Entre os sinais que merecem atenção estão o aumento do uso de álcool ou outras drogas e a perda de interesse por atividades que antes eram significativas. Essas mudanças podem indicar que algo está acontecendo e merecem ser observadas com cuidado”, comenta o professor.
Em situações de maior gravidade, como ação suicida, autoagressão ou sintomas psicóticos, a busca por suporte profissional deve ser imediata, salienta.
É nesse contexto que a campanha Setembro Amarelo reforça a importância de falar sobre a saúde emocional, reconhecer sinais de sofrimento e ampliar as possibilidades de acolhimento.
Por que estudantes têm dificuldade em pedir ajuda?
A vida universitária pode coincidir com um período de transições importantes, envolvendo questões acadêmicas, financeiras, afetivas, sociais e expectativas em relação ao futuro. Diferentes pressões podem se acumular e repercutir na experiência de cada estudante.
Rondinelli ressalta que a juventude não é uma experiência homogênea. Condições de trabalho, contexto socioeconômico, rede de apoio e trajetória pessoal interferem na maneira como cada pessoa atravessa esse período.
A dificuldade de pedir ajuda também pode estar relacionada à forma como o sofrimento é interpretado. “A gente transforma o sofrimento em fracasso individual”, afirma o psiquiatra.
Segundo ele, o estudante pode aprender que precisa ser produtivo, autônomo e emocionalmente funcional quase o tempo inteiro. Nesse cenário, admitir que não está conseguindo lidar com alguma situação pode ser entendido pelo próprio jovem como sinal de incompetência. O medo de julgamento, humilhação ou exposição também pode dificultar a procura por ajuda.
Ana Karina Barreiros, também professora do curso de Psicologia da Unoeste, afirma que essa dificuldade não é necessariamente exclusiva dos jovens e sim de “uma sociedade que pouco estimula e cria espaços favoráveis ao contato com as emoções e com as dimensões da sensibilidade humana”.
Como oferecer escuta sem julgamentos
Quem convive com um estudante que demonstra sinais de sofrimento pode exercer um papel importante, mas isso não significa assumir a função de um profissional de saúde mental.
“Podemos oferecer escuta com qualidade de presença e acolhimento em ambiente privado, dialogando sem julgamentos e preconceitos”, orienta a professora Ana Karina.
Mais do que encontrar respostas prontas, o objetivo é criar espaço para que o estudante consiga falar sobre o que está vivendo. Amigos, colegas e professores podem demonstrar disponibilidade para ouvir e, quando necessário, ajudar a aproximar o estudante de um atendimento especializado.
Onde entra a universidade na rede de apoio
Na universidade, essa rede pode envolver estudantes, professores, coordenações e serviços especializados. Na Unoeste, o Serviço de Apoio Psicopedagógico (SUAPp) oferece atendimento a estudantes e colaboradores e completou recentemente 11 anos de existência.
De acordo com o professor Erick Olsen Terakado, psicólogo integrante da equipe do SUAPp, o atendimento parte de uma escuta ativa e acolhedora. A partir da anamnese, são investigadas questões relacionadas à queixa, aos sinais e sintomas, à história pessoal e aos históricos médico e escolar. A sessão resulta em orientações e encaminhamentos.
“Os atendimentos têm duração de 50 minutos e podem ocorrer presencialmente ou on-line. O estudante pode procurar o serviço espontaneamente pelo aplicativo, mas a equipe também pode realizar busca ativa. Indicações de professores e coordenações, pedidos de terceiros e acompanhamento de casos anteriores fazem parte dessa dinâmica”, conta o professor.
As demandas são variadas. Entre as situações que chegam ao serviço estão dificuldades de adaptação ao início do semestre ou do curso, retorno aos estudos após afastamento, questões relacionadas à atenção e memória, dificuldades nos relacionamentos interpessoais e problemas de saúde ou familiares que interferem no rendimento acadêmico.
IA pode parecer solução
Em meio à dificuldade de falar sobre emoções, a inteligência artificial (IA) passou a ocupar um espaço novo. Para alguém em sofrimento, conversar com uma ferramenta digital pode parecer mais simples por estar disponível imediatamente, inclusive durante a madrugada, além de proporcionar sensação de ausência de julgamento e maior controle sobre a conversa.
Rondinelli observa que, em alguns casos, a IA pode funcionar como um espaço inicial para organizar ideias ou até facilitar uma busca posterior por ajuda.
“As pessoas acabam confundindo essa disponibilidade tecnológica com relação terapêutica de fato, por que a inteligência artificial não substitui vínculo, responsabilidade clínica ou um acompanhamento longitudinal. Muito menos consegue substituir uma rede humana capaz de reconhecer e dar o suporte necessário”.
O que a IA revela sobre a dificuldade de pedir ajuda
O uso da IA para falar sobre questões emocionais também levanta uma questão que vai além da própria tecnologia: por que uma pessoa pode se sentir mais confortável para revelar seu sofrimento a uma máquina do que a outra pessoa?
Para o Dr. Rondinelli, é importante olhar para o ambiente ao redor desse estudante e refletir sobre a existência de tempo adequado para escuta, relações de confiança e espaços em que ele possa falar sem medo de julgamento ou exposição.
Nesse sentido, esse fenômeno pode levar instituições, famílias e demais integrantes das redes de apoio a refletirem sobre a forma como estão oferecendo escuta e acolhimento.
Pedir ajuda também é uma forma de cuidado
Reconhecer que não está bem pode ser difícil, mas o sofrimento não precisa ser enfrentado em isolamento. A presença de pessoas dispostas a ouvir, a possibilidade de procurar atendimento especializado e a existência de redes de apoio podem ajudar o estudante a encontrar caminhos para lidar com aquilo que está vivendo.
Para Ana Karina, é importante não permanecer isolado diante do sofrimento e buscar canais de expressão, como a arte, encontros afetivos ou o contato com um profissional qualificado.
No ambiente universitário, reconhecer sinais, oferecer uma escuta cuidadosa e conhecer os caminhos de atendimento pode fazer parte dessa rede de proteção. Pedir ajuda, portanto, não precisa ser visto como sinal de fraqueza, mas como uma possibilidade de cuidado diante de uma situação que não precisa ser enfrentada sozinho.
Notícia disponibilizada pela Assessoria de Imprensa da Unoeste