Saúde do trabalhador enfrenta novos riscos na era digital
Especialista em vigilância sanitária aponta desafios para identificar assédio, pressão psicológica e outras ameaças que exigem novas formas de prevenção
A saúde do trabalhador enfrenta desafios que vão além dos riscos tradicionalmente identificados em fábricas, hospitais e outros ambientes profissionais. Com a transformação das relações de trabalho e o avanço das tecnologias, questões como assédio, discriminação, pressão psicológica e adoecimento mental exigem novas estratégias de investigação e prevenção. O tema esteve em discussão nesta quarta-feira (21), durante o 21º Fórum de Saúde do Trabalhador e Humanização do SUS, realizado no Teatro César Cava, campus 1 da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), em Presidente Prudente.
Integrado à programação do Encontro Nacional de Ensino, Pesquisa e Extensão (Enepe) 2026, o fórum teve como tema “Saúde do Trabalhador e Humanização na Saúde: Construindo Saberes para uma Formação Universitária em um Mundo em Transformação”. A atividade reuniu reflexões sobre a atuação dos serviços públicos, a formação acadêmica e a necessidade de preparar profissionais para reconhecer problemas de saúde relacionados às condições e aos processos de trabalho.
O palestrante Leandro Tarosso, biólogo que integra o Grupo de Vigilância Sanitária (GVS-21), da Vigilância Sanitária Estadual, destacou que os riscos físicos, químicos e biológicos continuam exigindo atenção, mas já não são suficientes para explicar todos os desafios atuais. As mudanças nos ambientes profissionais também colocam em evidência fatores menos tangíveis, relacionados ao comportamento e às relações entre trabalhadores.
“Os ambientes de trabalho estão em constante transformação. Mas nada é comparado à transformação deste momento”, observa Tarosso, ao apontar a necessidade de atualizar as ferramentas utilizadas para reconhecer, investigar e controlar os riscos à saúde.
Quando o risco não pode ser medido em decibéis
A vigilância em saúde do trabalhador acompanha padrões de adoecimento e acidentes relacionados ao trabalho, considerando o ambiente, os processos produtivos e as relações profissionais. Essa atuação se articula com outras áreas da vigilância em saúde, como a epidemiológica, a sanitária e a ambiental, que contribuem em diferentes etapas da identificação dos problemas e da prevenção.
Na prática, a investigação pode começar pela identificação de um agravo, como uma perda auditiva ou um acidente com máquina. A partir da análise dos casos, das condições de trabalho e da exposição a determinados agentes, é possível compreender os fatores envolvidos e orientar mudanças para evitar novas ocorrências.
A vigilância sanitária, por sua vez, atua preventivamente por meio de orientação, inspeções, fiscalizações e verificação do cumprimento das normas. A intenção é assegurar que os ambientes e os processos de trabalho ofereçam condições adequadas de segurança e proteção à saúde.
O desafio se amplia quando o risco não é tão evidente. Em ambientes profissionais marcados pelo trabalho remoto, pelas interações virtuais e por novas formas de organização, as relações entre colegas e gestores também podem contribuir para o adoecimento.
“Como é que quantifico o assédio que um trabalhador está sofrendo?”, questiona Tarosso. Ele compara a dificuldade de mensurar esse tipo de exposição aos parâmetros usados para avaliar riscos físicos, como os níveis de ruído, ou químicos, como a concentração de determinadas substâncias. Para o especialista, ainda é necessário desenvolver métodos capazes de identificar e dimensionar adequadamente esses novos fatores.
Saúde mental exige novas formas de investigação
O assédio, a discriminação, as ameaças e as pressões nas relações profissionais estão entre os desafios que demandam atenção. Diferentemente de um agente físico cuja exposição pode ser medida por instrumentos específicos, esses fatores exigem outras estratégias de investigação para compreender como ocorrem e quais consequências provocam.
Tarosso ressalta que os riscos tradicionais permanecem presentes, incluindo quedas, exposição a produtos químicos e acidentes com máquinas. Entretanto, a transformação dos ambientes profissionais torna necessário ampliar a abordagem das políticas públicas e preparar os serviços responsáveis pela vigilância para lidar com situações mais complexas.
A saúde mental, nesse cenário, demanda instrumentos capazes de considerar a dinâmica das relações de trabalho e os efeitos que elas podem produzir. O desenvolvimento desses métodos envolve diferentes áreas profissionais e representa uma frente de atuação para pesquisadores, profissionais da saúde e especialistas em segurança do trabalho.
Formação precisa acompanhar as mudanças
Mediador do fórum, o professor doutor do curso de Farmácia, Décio Gomes de Oliveira, da Unoeste e delegado regional da Seccional de Presidente Prudente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), destacou a importância de aproximar o conhecimento acadêmico das necessidades reais dos trabalhadores e dos serviços públicos.
Para ele, a formação universitária precisa integrar diferentes campos do conhecimento, da saúde coletiva ao direito trabalhista, preparando os futuros profissionais para atuar em equipes multidisciplinares e multiprofissionais. A postura ética, o acolhimento e o reconhecimento das desigualdades sociais também são fundamentais para uma atenção humanizada.
A discussão também reforça a importância de uma formação que não mantenha as profissões isoladas. Os problemas relacionados à saúde do trabalhador podem exigir conhecimentos de diferentes áreas, inclusive fora do campo da saúde, tanto para investigar suas causas quanto para construir medidas preventivas.
“É uma área bem desafiadora, ela está toda aí pela frente, está toda aí para ser trabalhada”, afirma Tarosso, ao destacar as oportunidades de atuação para profissionais interessados em vigilância e saúde do trabalhador. Segundo ele, esse campo é multidisciplinar e envolve diferentes formações na investigação, na prevenção e no controle de riscos.
Humanização também passa pelas condições de trabalho
A humanização do Sistema Único de Saúde envolve acolhimento, valorização dos trabalhadores e respeito aos direitos dos usuários. No debate sobre saúde ocupacional, essa perspectiva também exige atenção às condições em que os próprios profissionais desempenham suas funções.
O fórum propôs a troca de conhecimentos e experiências entre docentes, estudantes, pesquisadores, trabalhadores, gestores, integrantes de Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (Sesmt) e representantes de sindicatos.
Notícia disponibilizada pela Assessoria de Imprensa da Unoeste